Monday, March 23, 2009

Um episódio das invasões francesas em Portugal

Tem sido uma constante histórica a invasão de países por exércitos auto-denominados libertadores que conseguem iludir os povos invadidos nos primeiros dias da ocupação. Todos nos lembramos das cenas televisivas onde se viam muitos iraquianos a saudar o exército americano nos primeiros dias da invasão do seu país. Os europeus mais idosos ainda se lembram da alegria incontida dos parisienses quando os exércitos nazis chegaram à capital francesa no início da 2ª Guerra Mundial. Os soldados franceses que entraram em Portugal na 1ª invasão napoleónica foram recebidos com indiferença e curiosidade mais do que com agrado.
Como consequência dos inevitáveis abusos praticados pelas tropas, rapidamente os sentimentos de alegria ou de indiferença dos povos ocupados se transformam em sentimentos de hostilidade ou de ódio.

Em 30 de Novembro de.1807 Junot entrava em Lisboa e a 13 de Dezembro ocorria o primeiro motim por causa do içar da bandeira francesa no castelo de S. Jorge. Com este acontecimento o Inquisidor Geral D. José Maria de Mello (1756-1818) “bispo titular do Algarve, inquisidor geral nestes reinos, e seus dominios, do conselho de sua magestade, e seu confessor, &c”, atento por dever de profissão à reacção das massas, pressentiu o mal-estar popular e tomou providências para manter a paz e harmonia entre o novo poder e o povo.
Em 22 de Dezembro publicou uma carta dirigida a “todos os Fiéis da Santa Igreja Lusitana” solicitando-lhes que, para seu bem, respeitassem o invasor. À “Divina Providencia” deveriam agradecer “tantos e taõ continuos beneficios”, “sendo hum deles a boa Ordem, e quietaçaõ com que neste Reino tem sido recebido hum grande Exercito, o qual vindo em nosso soccorro, nos dá bem fundadas esperanças de felicidade”. Depois de elogiar “o General em Chefe, que o Commanda” lembra aos fiéis que “este Exercito he de Sua Magestade o Imperador dos Francezes e Rei de Italia, Napoleaõ o Grande, que Deos tem destinado para amparar, e proteger a Religiaõ, e fazer a felicidade dos Póvos”. Aconselha a todos os fiéis que respeitem as determinações de tão ilustre chefe pois, se assim fizerem, “naõ seraõ violadas as Clausuras das esposas do SENHOR; o Povo todo será feliz, merecendo taõ Alta Protecçaõ”. Que todos sigam as suas recomendações para cumprirem “fielmente com o que Nosso Senhor JESU CHRISTO tanto nos recommenda: Que vivaõ sujeitos aos que os governaõ, naõ só pelo respeito, que se lhes deve, mas porque a propria consciência os obriga”.

Para que os seus apelos fossem eficazes o Inquisidor Geral usava dos seus poderes para pôr a máquina da Inquisição a controlar as suas “ovelhas”:

Naõ Contentes Nós com esta diligencia, que por Nós mesmo Fazemos nesta Nossa Carta: Encarregamos mui encarecidamente aos Deputados do Conselho Geral, aos Inquisitores, e mais Ministros do Santo Officio, que com todo o desvelo, applicaçaõ, e efficacia concorraõ com a admoestaçaõ, com a exhortaçaõ, com a persuasaõ, assim como concorrem sem dúvida, e haõ de concorrer sempre com o exemplo, para que o mesmo socego, paz, e uniaõ naõ tenhaõ quebra ou mingua alguma, mas antes augmento sólido e constante.

Como era habitual, a carta do Inquisidor Geral foi publicada e afixada nas igrejas dos distritos pelas “Mezas das Inquisições” e muito provavelmente terá sido lida em todas as missas pelos padres “regulares” que na carta eram aconselhados a dizer aos seus paroquianos que nunca seria em demasia “o socego” e a “paz” dos vencidos nem a “uniaõ” entre vencidos e vencedores.
Com estas diligências ─ pensaria o Inquisidor Geral ─ o povo, tão habituado como estava a temer e a respeitar a Santa Inquisição, facilmente toleraria as tropelias dos soldados franceses. Enganou-se porém, porque, perante a prepotência e os abusos dos franceses, as revoltas começaram a surgir por todo o lado.

D. José Maria de Melo acabou por integrar uma ilustre “Deputação Portuguesa” que, em nome do Reino, se deslocou a Baiona para cumprimentar Napoleão, cumprimento que aconteceu em 26 de Abril de 1808. Por causa das revoltas entretanto ocorridas em Espanha e Portugal, nenhum dos membros da deputação pôde regressar. Falharam redondamente os seus esforços para conter o patriotismo dos portugueses e para agradar ao imperador de França que aspirava ser o imperador da Europa. D. José de Melo só conseguir chegar a Lisboa em 1814 quando a França derrotada assinou finalmente a paz.

Após a revolução liberal de 1820, dois anos após a morte de D. José Maria de Melo, a própria Inquisição acabou por ser derrotada e eliminada para alívio de todos os patriotas portugueses.

2 comments:

mch said...

Parabéns Gostei de ler. O tom está certo
será de considerar que Napoleão queria enviar para França, com a deputação e o envio do exército português que acompanhou o grupo até Bayonne, a élite portuguesa, para anular a resistência da população.
MAs enganou-se ! Como nós gostamos !

Edgar Cavaco said...

Interessante artigo.
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