Thursday, November 1, 2007

Os limites da Ciência


A recente conferência organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre os limites da ciência (A Ciência terá limites?, 25-26 de Outubro) e a repercussão mediática que causou puseram em confronto posições filosóficas antagónicas. Na sequência deste movimento, foram publicadas muitas opiniões e observações sobre a ciência, o seu valor e os seus limites.
Num lado, estão aqueles que afirmam que a ciência é a única forma de obter conhecimento válido e que haverá ciência enquanto houver homens e mistérios para desvendar. No outro lado, estão aqueles que pensam que o conhecimento pode ser obtido por distintas vias, que o domínio da ciência é limitado e que está a esgotar-se, conduzindo ao aniquilamento da própria ciência. São duas posições extremadas entre as quais se encontram posturas intelectuais intermédias com diferentes gradações de cientismo ou cepticismo.

Para todos, a real ou a virtual incapacidade da ciência para clarificar os mistérios da natureza pode atribuir-se às deficiências do método científico, à carência de meios técnicos e tecnológicos ou à ausência de áreas de estudo.

Não são novas as discussões sobre os limites da ciência. Mal se percebeu que a recém nascida “ciência moderna” era um meio eficaz de obtenção de conhecimento, surgiram vozes denegrindo o seu valor e utilidade e expondo os seus limites. “Como poderia a ciência contribuir para a salvação da alma, o objectivo único da nossa vida terrena?”─ perguntava-se. Foi particularmente nos séculos XVIII e XIX que muito se discutiu o valor e os limites do conhecimento científico em comparação com o conhecimento revelado!... Posteriormente, o místico, o metafísico e o poético procuraram impor-se como qualificativos do conhecimento humano, procurando fazer prevalecer os seus valores e argumentos e estabelecendo limites ao conhecimento científico. Assim se exprimia o nosso poeta José Régio em 1929:

Senhora Dona Ciência, o seu nariz é curto. E os seus olhos não vão mais longe do que a ponta do seu nariz. As suas descobertas… não foram feitas por si. Os seus códigos são provisórios ─ como sabe. As suas explicações não provam nada, porque de resto nada se prova. E o pior é que nem explicam!

Não é igualmente nova a ideia do esgotamento das áreas científicas. No séc. XIX, alguns cientistas pensaram ter atingido os limites do conhecimento científico em determinadas áreas do saber. Cauchy (1789–1857) julgava que se tinha atingido a verdade total sobre a teoria ondulatória mecânica da luz ao afirmar que “não admitia poder aprender sobre a luz mais do que já sabia”. Henrich Hertz (1857-1894), revelando apesar de tudo alguma prudência, afirmava em 1888 perante a associação alemã de cientistas que a nova teoria ondulatória electromagnética da luz se tinha tornado, “humanamente falando, uma certeza”. O físico Albert Michelson (1852-1931), o primeiro prémio Nobel americano (1907) afirmou que “as futuras verdades da física se deveriam procurar na 6ª casa decimal”. Quando Max Planck (1858-1947) procurou o seu professor Philipp von Jolly (1809–1884) para o aconselhar sobre a orientação a dar aos seus estudos, este ter-lhe-ia apresentado a física como uma ciência praticamente esgotada!… Nesta altura, ninguém imaginava ─ nem os próprios físicos ─ quanto a física viria a desenvolver-se no século XX!…
Conhecedores destes factos históricos, os cientistas actuais não se atrevem a afirmar que a ciência está esgotada, mas há jornalistas e pensadores como John Horgan e George Steiner que o fazem. Para além de desconhecerem a ciência, parecem desconhecer igualmente a sua história. Esta história mostra-nos que no desenvolvimento da ciência existem períodos de estabilidade e de alguma estagnação a que se seguem períodos de inesperadas revoluções. Aqueles que, como Jhon Horgan, pensam que a física está esgotada poderão inesperadamente ter uma enorme surpresa.
Apesar do muito que conhecemos sobre a Natureza desconhecemos muito mais; quanto mais avançamos no conhecimento, mais áreas desconhecidas surgem perante nós. Newton afirmava referindo-se às descobertas científicas feitas na sua juventude:

Sinto-me como se tivesse sido uma criança a brincar na praia e que se divertia ao achar, de vez em quando, uma pedrinha mais polida ou uma concha mais bonita do que o habitual, enquanto o grande mar da verdade se estendia, desconhecido, perante mim.

O físico João Caraça afirmou há dias num canal de televisão que “os limites da ciência são os limites da imaginação” e, ao concordarmos com esta afirmação, poderemos concluir que haverá ciência enquanto houver homens.
Parafraseando Henrich Hertz, “humanamente falando” não há limites para a ciência.

2 comments:

Faro Barros said...

porque os meu comentário é muito extenso e não parece caber aqui, busque em:

http://www.farobarros.pt
em novidades
autor Faro Barros
assunto crónica
na data 20071106

Zola said...

This is great info to know.