Friday, April 20, 2007

A irresistível atracção pela ciência e o risco das pseudo-ciências

Muitos são aqueles que sentem pela ciência uma atracção que muito rapidamente se transforma em paixão. Contrastando com as paixões amorosas ou artísticas, a paixão científica só poderá realizar-se se for iniciada na adolescência e prosseguida na juventude. Noutras palavras, um apaixonado pela ciência só poderá ter com ela um relacionamento feliz e produtivo se tiver usufruído de uma educação científica nas escolas secundárias e universitárias. Embora necessária, esta preparação não é sequer suficiente; estudos pós-graduados, incluindo o doutoramento, fazem actualmente parte da preparação de qualquer cientista.

Sem passar por este tirocínio de muitos anos de estudo, não é possível que um apaixonado pela ciência venha a produzir trabalho científico de qualidade. Já lá vão os tempos em que nem sequer uma formação secundária era necessária. Um dos mais paradigmáticos e notáveis exemplos é Michael Faraday (1791-1867) que não teve uma educação científica formal e que, apesar disso, foi um dos maiores físicos experimentais do século XIX. Porém, a partir do século XX, a ciência tornou-se uma área tão especializada que os amadores, sem uma educação científica formal, muito raramente conseguem produzir um trabalho científico reconhecido, por mais modesto que seja. Ao convencerem-se do contrário, cometem um erro que é desastroso tanto para eles como para a ciência, acabando por se transformar em agentes da chamada ciência alternativa, ciência marginal ou mais correctamente da pseudo-ciência.

Nas livrarias e alfarrabistas, encontram-se inúmeros livros que são testemunho desta falsa ciência, produzida por homens, muitas vezes bem intencionados, com uma forte paixão pelo saber mas que possuem uma profunda ignorância dos temas que abordam. A maioria deles foi totalmente esquecida após a morte, mas os seus livros continuam a divulgar erros, perpetuando assim, de geração em geração, os seguidores da pseudo-ciência. Há um padrão comportamental que identifica todos estes homens: a rejeição das mais recentes teorias científicas, a defesa de velhas concepções abandonadas pela ciência ─ de que o éter é um exemplo ─ a formulação de teorias alternativas sem qualquer fundamento físico ou matemático e o desafio lançado aos cientistas para que contrariem publicamente as ideias, por vezes absurdas, que expõem.

Para exemplificar, citarei alguns exemplos de pseudo-cientistas portugueses que escreveram sobre física, e muito particularmente sobre o tema da luz, e que revelaram uma forte oposição à “física oficial” que os marginalizava.

Guerra Junqueiro (1850-1923) foi uma das vítimas da atracção pela ciência. Para além de poeta pretendeu ser filósofo e cientista. O seu tema preferido foi a radioactividade, sobre a qual escreveu artigos e deu conferências, tendo publicado, em 1910, um opúsculo intitulado Theorie des Certaines Actions Radio-Biologiques. Como não tinha uma preparação científica sólida, o que acabou por produzir resume-se a afirmações vazias sem qualquer valor científico.

Augusto Ribeiro Leal no fascículo nº 1 do seu livro de 1917 O Infinito ─ segundo livro, explicando e ampliando o primeiro dedicado à atracção e gravitação, escreve para consideração dos leitores:

Publicando estas notas explicativas, faço votos para que os homens da Sciência as leiam e as meditem bem, e me digam a sua opinião, franca e sincera, ácerca dêste trabalho, que tantos cuidados e vigílias me tem custado; e prosseguirei na empreza, se ela não fôr taxada de temerária e inutil; e, esperançado em que haverá sempre quem aprecie a causa dos factos, darei publicidade ás minhas constantes lucubrações, a que já de há muito me entreguei. Uma nova doutrina precisa e ser estudada, e é nesse estudo que eu tenho empregado a maior parte do tempo.

Depois de declarar que não perderá tempo em comprovar “a existência de uma coisa universal e por demais conhecida” que é o éter, afirma:

Também me proponho explicar o que a sciência chama atracção, e ainda não explicou. Quem não ficar satisfeito vem para a imprensa com suas dúvidas e eu não deizxarei ninguém sem resposta.

Em 1920, A. A. de Moraes Carvalho ─ muito provavelmente Alberto António de Morais Carvalho (1853-1932) ─ exprimia as suas concepções sobre o mundo físico, a vida e a alma, na obra Le Problème de l’Univers. É um grande defensor da existência do misterioso éter e divaga sobre a natureza da luz e do calor nestes termos:

O éter ou aquilo que é o mesmo, o fluido etéreo, tem uma existência objectiva; não existe apenas na nossa imaginação, não é apenas uma imagem cómoda para a explicação dos fenómenos físicos, ele é uma realidade objectiva, ele é uma substância imaterial; e nós podemos constatar a sua existência, não somente pelos seus efeitos sobre a matéria bruta, mas ainda pelos seus efeitos sobre os nossos sentidos. O fluido etéreo é o próprio calor; condensado, ele torna-se a luz: são certamente duas constatações muito importantes que lançarão uma viva claridade sobre a interpretação de muitos outros fenómenos.

Em 1924 Lopes Veiga, abade de Boelhe (Penafiel), publicou um folheto sobre Mecânica Celeste, em que defende também a existência do éter nestes termos:

Alguns modernos dispensam êste elemento [o éter] e tudo explicam pelo electro-magnetismo; porém os que perfilham esta teoria desconhecem que a electricidade e o magnetismo são o próprio éter em acção.

Duas décadas mais tarde, Garcia Braga, que parece ter sido professor do ensino secundário em Vila do Conde, publicou uma Teoria neo-clássica da propagação luminosa (1948) onde defende igualmente a teoria do velho éter.

O coronel Bernardes de Miranda é autor de vários artigos divulgados na Revista de Artilharia (1928-29) e no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa (1944). Publicou a sua “grande obra” Nova Explicação do Universo: Teoria Fotónica em 1943, a qual seria comentada, expandida e aplicada numa dúzia de livros que escreveu sobre física até 1957. Propondo uma nova explicação para o mundo ─ baseada numa teoria fotónica de sua autoria ─ Bernardes de Miranda refuta como erróneo tudo o que diz respeito à física moderna do século XX, centrando-se em particular na Teoria da Relatividade e na Mecânica Quântica:

Já sabemos que um fotão é um agrupamento de protofotões formando uma hélice circular múltipla, como a constituída por ramais torcidos de uma corda.

Defensor da existência do “éter fotónico” constituído por fotões soltos de baixa frequência ─ “os gravitões” ─ e de alta frequência ─ nos quais se incluem “os magnetões”, os agentes do magnetismo ─ o “incompreendido” Bernardes de Miranda escreveu o seguinte em 1953:

A concepção einsteiniana do espaço físico é tida, pelos físicos relativistas, que são quase todos, como genial. […] Existem, porém, espíritos, como o do autor destas linhas, aos quais repugna absolutamente aquela concepção, como muitas outras que Einstein pretende instalar na Física. Elas são, para esses espíritos rebeldes, concepções de ordem metafísica, paradoxais, que brigam com a lógica e com o bom senso.

Mais contundente para com Einstein tinha sido, no entanto, o médico Henrique Cortez (1860-1936) que, para além de discordar da Teoria da Relatividade, duvidava da honestidade intelectual e cívica do grande físico. Em 1923 escreveu o seguinte:

A fantástica propaganda das teorias de Einstein que a Alemanha tem feito, após a guerra nos países aliados, obedece a um plano de revanche, secretamente elaborado nos cenáculos de Berlim. Eis o que penso; e, se não erro, Einstein figura nesta pochade como Pilatos no credo. Sendo assim, esta propaganda não é scientífica, mas tão sòmente política. Sendo assim, Einstein não é um autor, mas tão sòmente um actor.

Henrique Cortez não se limita a rejeitar a Teoria da Relatividade; ele contesta, efectivamente, quase todos os fundamentos das ciências naturais do seu tempo, incluindo a Física, a Astronomia, a Geologia e a Cosmogonia. No livro póstumo de 1938, Trabalhos Originais sôbre Astronomia Física e Cosmogonia, publicado pela “inditosa viuva” como préstimo “de sentida homenagem à sua memória”, Henrique Cortez “prova”, com uma simples experiência de um papel fortemente iluminado, que a pressão da radiação luminosa não existe, e depois acrescenta:

Provado pois que a tensão da radiação da luz foi uma gaffe dos físicos, cumpre-nos perguntar: em que situação ficam os astrónomos que nela basearam o alongamento das caudas cometárias? Que nos respondam uns e outros.

O Prof. Artur d’Albuquerque foi outro personagem, com manifesta falta de preparação científica, que julgou perceber a estrutura mais profunda da Física e se convenceu poder dela extrair os fundamentos práticos para a realização de extraordinárias invenções que nunca chegou a testar por falta de meios financeiros… Contam-se entre estas invenções uma Bomba Radiognética (Bomba Atómica), uma ideia concebida e desenvolvida entre 1936 e 1940. As suas concepções teóricas eram igualmente muito ambiciosas; sobre o fotão escreveu o seguinte:

Pois em que consiste o fótão, senão num centro de fôrça radiante fìsicamente constituída por vários elementos corpusculares activos, e ao mesmo tempo conduzidos pelos seus respectivos movimentos vibrativos?

Em 1945, ou pouco antes, o Prof. Artur d’Albuquerque publicou a Órbita Universal Tratado de Filosofia Complementar (2ª edição). Segundo ele próprio escreve, trata-se de um tratado de filosofia físico-química e um tratado de investigação científica. Para além de questões de natureza física e química, trata de outros assuntos como a vida, a alma, a transmissão mental (espiritismo), a religião e a filosofia. No seu livro Captação da Electricidade no Espaço, 1944-1947, o «Prof.» defende a tese segundo a qual a electricidade é:

O supremo fluido energético, que, em quantidade e qualidade se destina a alimentar a vida continua e constante do Universo, dado como fôrça de razão comum supremamente organizada”.

Com base nestas ideias apresentou um plano de uma máquina para a extracção directa da electricidade atmosférica mas que, dada a sua grandeza, se mostrou inexequível…

O recentemente falecido major Manuel da Silva Marques ─ autor de O Universo e a Fotónica e personagem muito popular nas reuniões da Sociedade Portuguesa de Física ─ era um discípulo de Bernardes de Miranda e é um caso exemplar de contaminação pelas ideias pseudo-cientistas. É de referir que, apesar dos seus protestos junto de reitores e ministros, o major nunca conseguiu apresentar formalmente as suas ideias nas reuniões da Sociedade Portuguesa de Física. Na introdução do seu segundo livro Luz: O que é? Como se movimenta? escreveu, na dedicatória, o seguinte:

Dedico esta obra ao genial cientista português António José Bernardes de Miranda, autor da TEORIA FOTÓNICA, o mais importante livro da ciência das ciências, que permitiu que eu descobrisse as mais importantes leis que regem o Universo e em especial a LEI DA IMPULSÃO UNIVERSAL OU TEORIA DO CAMPO UNITÁRIO.

Neste mesmo livro, afirma ainda:

A teoria da Relatividade de Einstein é uma mera e pesada fantasia matemática, que apenas se pode relacionar com a Física, pelo facto de não conter nada de Física.[…]
Eu sei que a velocidade da luz não é sempre constante e que varia segundo a natureza do astro, da sua atmosfera e de outros valores. […] Depois de raciocinar sobre o assunto (do tempo de cada translação da Terra em volta do Sol) e de fazer os meus cálculos obedecendo a uma das leis por mim descoberta, concluí que a velocidade da luz podia ser obtida pelo produto do TEMPO de cada translação da Terra, vezes a VELOCIDADE DA ACÇÃO IMPULSIONANTE DA GRAVIDADE.

Feitas as contas com o tempo sideral, o autor concluía que a velocidade da luz era em Londres 309585,449 km/s e no Porto 309269,868 km/s!...

Se o entusiasmo destes amantes da ciência tivesse sido canalizado para um estudo sério da verdadeira ciência talvez o nosso panorama científico fosse mais rico. As escolas e a sociedade têm, por isso, uma grande responsabilidade na protecção das vocações científicas da adolescência e na criação de condições para que essas vocações possam crescer e frutificar. Se assim for, haverá em Portugal mais amantes do saber, capazes de cultivar a verdadeira ciência, e acabarão os pseudo-cientistas que gastam o seu tempo e esforço inutilmente.

1 comment:

Anonymous said...

concordo em absoluto com a necessidade de, desde muito cedo, criar o gosto pela ciência e a escola poderia(e deveria) desempenhar aí um papel importante. Só que os nossos governantes não pensam assim e as condições para o ensino das ciências têm vindo a degradar-se de dia para dia(salvaguarde-se o programa Ciência Viva em boa hora criado). A redução do número de horas lectivas atribuídas às disciplinas científicas, o seu carácter opcional em situações impensáveis, a inexist~encia de horas previstas nos horários dos professores para prepararrem actividades laboratoriais, sejam elas de demontração ou a relaizar pelos alunos, a inexistência de auxiliares de laboratório, a quase permanente ocupação dos laboratórios como simples salas de aula, grande parte das vezes ocupados com disciplinas sem componente laboratorial, são apenas alguns exemplos da pouca atenção dispensada ao ensino das ciências