Monday, February 10, 2014

Os telemóveis de há 60 anos


Os telemóveis que hoje usamos com toda a facilidade começaram por ser objectos de difícil transporte.  De móveis tinham muito pouco e exigiam ao utente alguma robustez física. Um das limitações dos telemóveis - que se chamavam “aparelhos portáteis de telefonia” - eram, tal como hoje, as baterias. Mas o problema nessa época não era apenas o da sua duração mas também o do seu transporte. Para resolver este último problema nada melhor que arranjar um colete ajustado ao corpo onde se pudessem colocar, com algum conforto, as baterias. É o que mostra esta fotografia retirada do nº. 66 (30 de Junho de 1953) de uma revista cultural e de divulgação científica portuguesa chamada Átomo, ciência e técnica para todos, que se publicou durante 6 anos.
O texto que a acompanha é o seguinte:
“Colete-Bateria para T. S. F. Portátil – A nova bateria em forma de colete veio aumentar as possibilidades dos pequenos aparelhos portáteis de telefonia, transmissores-receptores, facilitando o seu transporte, aumentando a sua potência e, o que é muito importante, permitindo que as baterias mantenham a temperatura conveniente, em contacto com o corpo, mesmo nos climas frios”.
Para os mais jovens estes factos podem ser surpreendentes, mas a miniaturização dos telemóveis só foi possível após o aparecimento e posterior produção em massa da electrónica integrada. Há 60 anos, o transístor - inventado em 1948 - era já um componente electrónico promissor que começava a ter aplicações experimentais na rádio, televisão e indústria, mas afirmava-se que não suplantaria o tubo electrónico, a conhecida “válvula”!... Cinco anos passados, em 1958, era patenteado pelo engenheiro electrotécnico Jack Kilby o primeiro circuito integrado – constituído por elementos activos (transístores) e passivos (resistência e condensadores) – que valeu ao seu inventor o Prémio Nobel de Física de 2000. Posteriores desenvolvimentos permitiram reduzir o tamanho e aumentar extraordinariamente as funções dos telemóveis primitivos, que são, para os mais velhos, apenas uma longínqua recordação.

O Estado Novo e a política científica

Fala-se muito em Portugal da política de investigação científica do actual governo, que ninguém conhece pela simples razão de aparentemente não existir. Sabe-se apenas que não será igual à que conduziu ao bom desempenho da ciência portuguesa nas duas últimas décadas. Talvez seja útil lembrar aos governantes qual foi a política do governo autoritário de Salazar, pois poder-lhe-á servir, entre outras possíveis alternativas, como fonte de inspiração. Com a política de contenção, de inspiração salazarista, conseguir-se-ia que o país, para além de mais pobre, ficasse também mais inculto, dando alguma coerência à política terceiro-mundista que, nos últimos três anos, tem sido implementada em Portugal.
O Estado Novo — que tinha como base para a educação nacional a trilogia “Deus, Pátria e Família” — trouxe alguma ordem, estabilidade e sustentabilidade ao ensino nacional, e promoveu, à sua maneira e de acordo com as possibilidades financeiras do país, a ciência e a tecnologia. Mais impelido pelo exemplo de outros países — em particular da vizinha Espanha — do que propriamente por uma genuína motivação pela ciência, Salazar criou a Junta de Educação Nacional (JEN) em 1929, que se transformaria em 1936 no Instituto para a Alta Cultura (IAC), uma designação que o físico Manuel Valadares, mais tarde saneado, considerava “infeliz” ...
O objectivo desta política era criar uma elite para poder sustentar um desejado progresso que já há muito existia noutros países europeus. Não havia, porém, qualquer interesse do regime político para que fosse popularizada a cultura científica, baseada na independência e na liberdade.
O Secretariado Nacional de Informação (SNI), herdeiro do Secretariado de Propaganda Nacional (S.P.N.) criado em 1934, propagandeava nas suas publicações o muito “esforço” do governo para patrocinar a ciência e a cultura. Sob o título “Os Institutos e Centros de Investigação” incluído numa dessas publicações afirma-se o seguinte:
O número de organismos científicos que o Estado criou revela bem como a vida precária da investigação científica em Portugal se vem modificando e melhorando. O critério seguido foi mais a criação de pequenas células servidas por estudiosos de escol do que o estabelecimento de organismos majestosos cuja acção muitas vezes não corresponde ao plano feito, e que são difíceis de sustentar em País, como o nosso, de recursos modestos.
Aí se apresenta uma lista de centros e institutos científicos que o Instituto para a Alta Cultura “sustenta e habilita” e conclui-se:
Com subsídios a Centros de Estudo e a publicações gastou o I. A. C. até hoje cerca de três mil e quatrocentos contos, verba sobremaneira importante para um país desprovido até 1928 de Institutos de investigação especializada.
A política de formação de bolseiros no estrangeiro era igualmente enfatizada pela propaganda política do governo salazarista:
O Estado volveu ao bom caminho antigo [na senda das políticas de D. João III e de D. João V...]. Desde a sua fundação até hoje o Estado despendeu já cerca de onze milhões e meio de escudos com o envio de bolseiros a centros culturais estrangeiros, e isto dentro das ciências mais variadas e de todas as formas de Arte.
Foram oferecidas bolsas para que professores portugueses visitassem centros de investigação e instituições de ensino estrangeiros, com o objectivo de se informarem sobre as mais recentes inovações de modo a poderem ser implementadas no país.  Havia a preocupação que as pessoas escolhidas para estas missões fossem fiéis ou pelo menos que não fossem contrários ao regime. O Estado Novo dava mostras de uma grande preocupação com a actualização científica do país, mas mantinha um completo controlo sobre as actividades dos educadores e dos cientistas portugueses.
Para que não surgissem imprevistos, a participação em congressos científicos era igualmente controlada pelo governo através da escolha de cientistas “oficiais”:
O I.A.C. tem sido, desde 1936, o organismo geralmente encarregado de escolher a representação portuguesa nos vários congressos científicos internacionais. Com tal acção, e com comissões especiais de estudo, gastaram-se em seis anos mais de setecentos milhares de escudos.
As purgas de muitos cientistas, realizadas por duas ocasiões (1935 e 1947), e todas as dificuldades que o regime pontualmente criava a quem não tivesse um cadastro político “limpo”, mostram bem que acima do desenvolvimento científico estava a manutenção do regime político onde a liberdade era condicionada e era muito apertado o controlo das actividades dos cidadãos.
Com esta política científica tão bem planeada, o Estado Novo transmitia a imagem de grande fomentador da ciência, gastava muito pouco dinheiro e favorecia amigos e sequazes.
Tudo isto é  muito inspirador... Não é verdade?! ...

Sunday, December 9, 2012

O primeiro microscópio


Nos primeiros anos do século XVII surgiram notícias da invenção de um poderoso instrumento com o qual se podiam observar objectos tão pequenos que não seria possível distingui-los à vista desarmada. Vários homens disputaram a prioridade desta invenção, o que criou algumas dificuldades aos historiadores da ciência… Actualmente, porém, é bastante consensual que a invenção foi realizada por volta de 1590 por Zacarias Jansen, um fabricante de lentes que foi também falsificador de moeda! …
Logo após a invenção de Jansen, o microscópio não despertou um grande interesse científico mas, passadas algumas décadas, o interesse cresceu com a publicação de surpreendentes desenhos de minúsculos seres onde se podiam ver detalhes nunca antes imaginados. Entre os microscopistas que usaram o microscópio sucessivamente melhorado, encontram-se Giovanni Borelli (1608-1679) e Marcello Malpighi (1628-1694), que se notabilizaram após a divulgação das suas observações. A obra que mais contribuiu para a divulgação da microscopia foi, porém, a Micrographia (1665) de Robert Hooke (1635-1703), onde aparecem primorosos desenhos de cristais, insectos, cortiça, sementes e folhas, com detalhes nunca antes observados.
O instrumento inventado por Jansen, que permitiu a Hooke fazer estas observações, era constituído por duas lentes colocadas nos extremos de um tubo com um determinado comprimento. Junto da primeira lente (a objectiva) colocava-se o objecto a observar, junto da segunda (a ocular) colocava-se o olho. Desde que a relação entre as curvaturas das lentes, ou as distâncias focais, fosse apropriada, podiam ver-se imagens muito ampliadas. No princípio do século XVII, o filósofo e matemático grego Giovanni Demisiani (?-1614) sugeriu a palavra microscópio, para designar este aparelho. Microscópio começou também a chamar-se a um instrumento mais simples constituído por uma única lente esférica de reduzidas dimensões e de grande poder ampliador. Para os distinguir, um tal doutor Goring propôs, no início do século XIX, o termo engiscópio para o microscópio de duas lentes, mas a palavra não se impôs, nem na nomenclatura técnica nem na linguagem vulgar. Na verdade, este termo já era utilizado no século XVIII como sinónimo de microscópio, como se pode verificar numa brochura de 1782 intitulada Certame Fysico dos Corpos Celestes e Terrestres, escrita pelos frades portugueses Joaquim da Conceição, Domingos da Salvação e Manuel de Avé Maria ─ um trabalho de tese, que apresentaram no fim dos seus estudos, no Colégio da Ordem da Trindade de Lisboa, sob a orientação do teólogo Fr. António da Silveira. Nesta brochura, o microscópio de duas lentes foi designado por microscópio composto; o de uma única lente por microscópio simples ─ a mesma designação que ainda hoje é utilizada.
É relativamente consensual que o microscópio simples já era conhecido antes da invenção do microscópio composto, até porque nenhum dos microscopistas que o usaram no século XVII reclamou a prioridade da sua invenção… A Roger Bacon (1220–1292) foram atribuídas algumas invenções ópticas, muitas das quais não tem sido possível confirmar historicamente. É certo que inventou as lentes biconvexas e que as estudou, juntamente com outras formas de lentes já conhecidas, sob o ponto de vista da óptica geométrica, incluindo as aberrações esféricas. Não é certo, porém, que tenha inventado nem o telescópio nem o microscópio, como alguns afirmam. Este frade franciscano faz parte de um grupo de filósofos europeus do século XIII, conhecidos como perspectivistas, que se dedicaram ao estudo da óptica, ou perspectiva, e que conheceram o trabalho de filósofos árabes, como Al-Kindi (801–866), Ibn Sahl (940-1000) ou Alhazen (965–1040). Há por isso quem afirme que a invenção de instrumentos ópticos, como o microscópio, poderia ter sido feita por alguns destes filósofos árabes ou até por outros filósofos árabes de diferentes épocas.
A verdade porém é que nunca antes da invenção do microscópio composto foram divulgados relatos de observações feitas com microscópios, incluindo o microscópio simples. No seu livro Ars Magna Lucis et Umbrae (1646), o Pe. Atanásio Kircher (1602-1680) faz referência ao microscópio composto e apresenta diagramas de microscópios simples a que chamou “smicroscópios”, que mais se parecem com lupas biconvexas. Estes “smicroscópios” já eram usados em observações realizadas por François Fontana, desde 1618, e por J. Stellutin, desde 1625. No entanto, as observações mais famosas, que despertaram a atenção de toda a comunidade científica de seiscentos, foram realizadas pelo ilustre microscopista holandês Anton van Leeuwenhoek (1632-1723) com microscópios simples que ele próprio construiu. Nesta época, devido à incapacidade de eliminar as aberrações cromáticas, a qualidade de imagem de um microscópio composto era inferior à de um microscópio simples sempre que as ampliações eram elevadas.
As lentes que constituem os microscópios eram já conhecidas na Antiguidade, não havendo no entanto certezas sobre o uso que lhes era dado; tanto poderiam ter sido usadas como lupas, lentes ustórias ou simplesmente objectos decorativos. As chamadas lentes de Tróia, que fazem parte do tesouro descoberto entre 1872 e 1890 por Heinrich Schliemann (1822–1890), são lentes de cristal de rocha (quartzo) transparente, desbastadas e polidas entre 2600 e 2450 a.C.. Funcionando como lupas, estas lentes apresentam ampliações de cerca de duas vezes. Lentes encontradas em Creta e fabricadas em 1400 a.C. têm um poder ampliador de onze vezes. Com estas ampliações relativamente modestas, as observações microscópicas ficam muito limitadas. Para aumentar a ampliação, deve diminuir-se o raio de curvatura das lentes o que equivale a diminuir a sua distância focal.
Perante as muitas histórias, narradas por autores antigos, sobre a existência de mini e micro-esculturas, surge a dúvida se não teriam sido usadas lentes de grande ampliação, na Antiguidade. Recorramos ao texto manuscrito do Tractado da Optica (1714) do Pe. Inácio Vieira (1676/8-1739) ─ um professor de matemática na Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão em Lisboa ─ que, a propósito de pessoas capazes de esculpir objectos de pequeníssimas dimensões, afirmava:
Alguñs hà taõ perspicazes, que descobrem couzas muito meudas como por exemplo Calicrates [séc. V a.C.], o qual fazia obras taõ meudas em marfim, como formigas, moscas, etc, que os outros naõ podiam devizar, nem destinguir as suas partes, que certamente cada huã destas couzas tinha distintas. Mirmèsedes fazia huã carrossa com quatro cavallos que se podia cobrir com a àza de huã mosca, e huã nâo à vella com todas as suas partes, que se cobria com a aza de huã abelha. Conta tambem Cisero [106-43 a.C.], que vira os livros de eliada de Homèro, que saõ 24 escritos em letra taõ meuda, que se fexavaõ todos na casca de huã nòs, e hũ Autor mais moderno vio o credo, e o principio do Evangelho de S. Joaõ escritos em hũa moeda como hũ vintem; e vira o caroço de sereja e nelle esculpido com tal arte hũ cestinho com doze pares de dados, que era hũa admiraçaõ; e isto antes de haver os vidros, com que se multiplicaõ os objetos.
O Pe. Inácio Vieira sustenta implicitamente que estas obras eram feitas a olho desarmado! … Actualmente, pensa-se que estas miniaturas, se alguma vez existiram, não poderiam ter sido feitas doutra forma senão com uma lente ampliadora.
As histórias ou lendas sobre os mini objectos descritos pelo Pe. Inácio Vieira e por muitos outros autores mostram o fascínio que este tipo de objectos, reais ou imaginários, sempre causou às pessoas. Este mesmo fascínio poderá explicar o interesse que os primeiros microscópios despertaram na Europa, ao ponto de serem utilizados nos serões das cortes para diversão da família real e dos nobres.
Para obter ampliações de algumas centenas de vezes, Leeuwenhoek usou lentes esféricas de vidro com diâmetros da ordem de 1 mm. Não existem documentos históricos que provem a existência destas lentes minúsculas na Antiguidade ou na Idade Média, embora não haja razões para que não tivessem sido produzidas, mesmo que inadvertidamente, nas oficinas vidreiras de egípcios, romanos ou árabes. Depois destas mini lentes terem aparecido, integradas nos microscópios simples, começaram a ser desvendados os segredos do seu fabrico. Numa tradução portuguesa (1818) do livro Secretos de Artes liberales, y Mecanicas de Bernardo Monton, publicado pela primeira vez em 1734, pode ler-se o segredo “Para fazer hum Microscopio com huma gota de agoa, ou de cristal”:
Toma hum pedacinho de chumbo, que adelgaçarás com hum martello, tudo quanto quizeres; e com huma agulha grossa farás no meio desta prancha hum buraquinho, levantarás hum beicinho no redor de todo o chumbo; e no buraquinho lançarás huma gota de agoa (na qual tenhaõ estado em infuzaõ flores secas, ou casca de alamo, freixo, pinheiro, &c. por dous, ou tres dias) olharás ao través de huma véla, ou outra luz, e verás muitas sevandijas, que nunca cessaraõ de mover-se, e só pararaõ, quando a agoa perder a sua figura esferica. Se quizeres o Microscopio de cristal, seja do fino; o grosso do buraquinho, acima dito, ou alguma couza mais; e este porás sobre o pavio da véla, que se fundirá, e deixa-o cahir no buraquinho, que fizestes, ou em outro de hum papelaõ, ou carta de jogar, &c. e que fique esferico; porque de outra sorte se naõ póde aproveitar. O Microscopio de agoa só aproveita para na occasiaõ; o de cristal para sempre.
Este modo de construir microscópios simples é ainda hoje proposto em livros de ciência experimental para crianças e jovens. Efectivamente, de uma forma simples, barata e didáctica, pode obter-se um poderoso microscópio com uma simples gota de água…
Foi grande o impacto que as observações microscópicas tiveram sobre a ciência e as mentalidades no século XVII. O homem, rodeado pelo mundo antropocêntrico que ele próprio construíra à sua medida, teve alguma dificuldade em aceitar tanto o macrocosmos, exposto com o telescópio, como o microcosmos, revelado pelo microscópio. Nos meios filosóficos escolásticos, surgiram dúvidas sobre a realidade das imagens produzidas por estes instrumentos. Chegou a pensar-se que tais imagens não passavam de ilusões criadas ou pelos olhos ou pelos próprios instrumentos. Nos meios populares, onde grassava a ignorância, as imagens do microscópio causaram espanto e logo surgiram explicações supersticiosas que, perante as evidências, foram prontamente rejeitadas. Uma história contada por Pe. João Baptista de Castro (1700 ––1775) revela bem a reacção popular: 
Faz muyto ao intento aquelle caso que sucedeo ao famoso Jesuita Adão Tannèro. Achava-se este P. lutando cõ a ultima enfermidade, & nas ancias da agonia, em hum pequeno lugar da sua Patria Inspruck, quando os ministros de Justiça vierão registar seu apozento, para porem em deposito tudo o que nelle achassem. Era aquelle Padre hum dos mais sabios do seu tempo, singularmente curioso; & entre muytas cousas prodigiosas que lhe acharão, foy hum pequeno vidro, que incluia hum formidável monstro em fórma de dragaõ, negro, horrivel, & medonho. Divulgou-se a fama, & noticia do invento; concorreo gente para ver huma quasi impossivel, qual era ser a cousa contida, mayor que o continente; & assentando todos, que aquelle artefacto não podia ser natural, concordarão que era hum demonio visivel, & o Padre algum insigne feyticeyro; & por este acordão esteve o Padre sentenciado a mandarem-no enterrar em lugar profano: atè que hum dos circunstantes que naquelle ponto havia chegado, homem de experiencia, conhecendo o artificio com que o vidro era feyto, abrio-o, & soltou delle hum pequeno, & vil bichinho, que tal microscopio encerrava. Ficarão todos admirados, vendo que por meyo de hum vidro se aumentavão tanto as cousas.
Homens da Igreja, menos receosos das novas tecnologias e mais preocupados com a moralidade, tentaram usar o novo instrumento para a promoção da moral cristã. Nas palavras do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710) da Nova Floresta:
Ha oculos lavrados em tal fórma, que as cousas pequenas, representaõ como grandes: e outros pelo contrario, que as cousas grandes, representaõ como pequenas. A malicia, ou ignorancia humana tambem usa desta optica: com os primeiros oculos vê as faltas das pessoas ordinarias, a quem despreza: com os segundos as das pessoas sublimes de quem depende.   
Depois da invenção do microscópio, transformou-se a visão científica que o homem tinha do mundo. Ideias que vinham da Antiguidade e se consolidaram na Idade Média, como a geração espontânea, dissipavam-se perante a descoberta de ovos microscópicos geradores de insectos, cuja existência nunca antes se conhecera. Com a descoberta das células e das bactérias, dos protozoários e dos espermatozóides, o mundo do homem tornava-se claramente dependente de um universo invisível que nunca antes fora sequer imaginado. Com estes instrumentos, a autoridade dos mestres antigos ruía estrondosamente, e outras bases foram necessárias para a construção de um novo edifício que espelhasse uma imagem mais fiel da natureza.  
Actualmente, há microscópios ópticos e não-ópticos, que funcionam de acordo com os mais diversos princípios físicos e que se transformaram em instrumentos imprescindíveis na ciência e nas tecnologias modernas. Tal como no passado, continuam a ser uma extensão dos nossos sentidos, permitindo-nos ultrapassar as nossas naturais limitações na observação da natureza. Desde a invenção de Zacarias Jansen, os avanços realizados na microscopia foram enormes ─ da observação das asas das abelhas passou-se à análise da estrutura dos átomos.

Wednesday, June 6, 2012

Augusto Celestino da Costa

Augusto Celestino da Costa (1884-1956) foi uma personalidade de grande relevo no meio académico português, como cientista, pedagogo, organizador e promotor da ciência e como homem de elevado carácter e de enorme cultura. Catedrático de Histologia e Embriologia desde 1911, desenvolveu um laboratório na Faculdade de Medicina de Lisboa de nível europeu e rodeou-se de colaboradores competentes e entusiastas como Roberto Chaves, Magalhães Ramalho e Simões Raposo. Em 1919 organizou o serviço de análises clínicas dos Hospitais Civis; em 1929 era vice-presidente da Junta de Investigação Nacional e em 1934 foi designado seu presidente. Em 1931, Abel Salazar escrevia a Celestino da Costa afirmando-lhe “o dr. Celestino é um homem sempre novo, duma energia férrea, a quem se deve, praticamente, o pouco que entre nós já se faz em biologia”.
Para além de investigador de grande mérito foi um grande organizador e professor. Considerado um dos melhores embriologistas europeus do seu tempo, tinha um grande prestígio no meio académico de língua francesa, tendo organizado em Lisboa duas reuniões anuais da Association des Anatomistes, em 1933 e 1956. Celestino da Costa publicou centenas de artigos sobre a embriologia do sistema nervoso vegetativo, a histofisiologia das glândulas endócrinas e outros assuntos, tendo sido agraciado com uma distinção do governo francês em 1923. Abel Salazar afirmava que Celestino da Costa era “o ministro dos negócios estrangeiros da ciência portuguesa”. Celestino da Costa foi presidente da Junta Nacional de Educação (1934-36) e do Instituto para a Alta Cultura (1936-1942). Foi destituído por causa de um discurso que proferiu na Câmara de Lisboa depois de ter afirmado que Lisboa e não Coimbra era a capital cultural do país… Em represália, a Universidade de Coimbra ─ pela influência de Mário de Figueiredo, um professor de direito que ocupava então o lugar de ministro ─ conseguiu a destituição de Celestino da Costa da direcção da Faculdade de Medicina de Lisboa e da presidência do Instituto de Alta Cultura. Desta forma, a Universidade de Coimbra manifestou a sua grande influência política de efectivo apoio ao Estado Novo. Celestino da Costa foi substituído por Gustavo Cordeiro Ramos (1888-1974), professor de Literatura Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa, germanista e com fama de homossexual, causando uma péssima impressão na maioria da comunidade científica portuguesa. Amândio Tavares passou a ser o vice-presidente. Cordeiro Ramos tinha sido ministro da Instrução Pública (1930-1933), tendo criado, pelo decreto-lei 19 081 de 2 de Dezembro de 1930, a Universidade Técnica de Lisboa, uma iniciativa que, segundo ele próprio, “levantou grandes oposições, filhas de uma mentalidade acanhada e rotineira”. Devido a um suposto plágio do Fausto de Goethe, feito por Cordeiro Ramos e denunciado por Sant’Anna Dionisio, estabeleceu-se, em 1929, uma polémica entre estes dois homens nos jornais A Voz e a A Águia.

Sunday, June 3, 2012

Sosseguem, homens da Troika …

Há 120 anos Alberto Sampaio (1841-1908) descreveu a forma que os portugueses encontravam para resolver as suas crises. Não creio que o 1º Ministro se tenha inspirado neste texto para aconselhar os jovens portugueses a emigrarem, mas isso também não é importante, pois a solução sugerida parece estar entranhada na alma lusitana.

Eis o que Alberto Sampaio afirmou sobre a sociedade portuguesa:

Ontem como hoje, tem sido sempre uma sociedade de aventureiros […]. O que cada um deseja é que o deixem sair […]. Por isso, quando aparecem estas situações de miséria e penúria, constantes na sua história, a população resigna-se a sofrer tudo; ou emigra, acostumada, como está à aventura. […] Então a emigração é o último expediente para ele; silenciosa e resignadamente cada um vai partindo, sem talvez uma palavra de amargura. Os que ficam acalentam no fundo do coração sobre todas qualquer esperança que não dependa da actividade colectiva […] E todos esperam no meio de ruínas que volte a bonança para repetirem mais uma vez a mesma norma de vida do passado.

Perante as crises nacionais, parece que a austeridade, o empobrecimento, a resignação e a emigração têm sido, sempre, as soluções escolhidas pelo povo ! … Sosseguem homens da Troika, os portugueses são de confiança!…

Friday, May 18, 2012

A Grécia, a Alemanha, o choque de culturas, a ciência, a técnica e a tecnologia

A presente crise económico-financeira que abala alguns países da Europa fez-me recordar as diferenças que caracterizam duas culturas europeias bem distintas: a do Norte, bem representada e liderada pela Alemanha, e a do Sul melhor representada pela Grécia. Não é pelo efeito do sol e das praias que podemos diferenciar essas culturas, mas pelas suas origens que podemos procurar na Germânia de Cornélio Tácito e na Grécia de Platão.
Durante a Antiguidade, a cultura grega espalhou-se pela Europa romanizada, para se extinguir, dominada por um Cristianismo estóico, na Idade Média. Ressurgiu com a Renascença e iniciou uma nova decadência no século XIX com a ascensão da cultura germânica. Aproveitando e integrando a ciência e a tecnologia, esta cultura atingiu uma notável supremacia antes das duas guerras mundiais que levaram a Alemanha à humilhação e à derrota. Apesar disto, o espírito de superioridade que caracteriza o povo germânico permaneceu e continua a tentar dominar, não pelas armas mas pelo poder económico que a tecnologia e a ciência lhe dão.
A cultura de raiz grega ─ humanista e especulativa ─ talvez menos adaptada à actividade científico-tecnológica perdeu competitividade económica face à cultura germânica e adormeceu com as promessas de conforto no seio de uma União Monetária.
Por sua vez, o capitalismo, não satisfeito com o lucro que retira das actividades científico-tecnológicas, viu uma oportunidade na fraqueza económica dos países do Sul que tão desprotegidos estão por uma moeda sem alicerces. Aumentou-lhes os juros de dívidas soberanas que não podem naturalmente saldar. Enquanto o capital do Norte engorda, os países do Sul definham arrastando consigo a sua humilhada cultura…
Nesta crise, há um choque de duas culturas e de duas visões do mundo e da vida. A do Norte está a impor-se porque utiliza a ciência e a técnica em seu proveito. O seu domínio continuará e só poderá enfraquecer se a cultura do Sul usar as mesmas armas, isto é, investir na ciência, na técnica e na tecnologia. Com a imaginação, a flexibilidade e a adaptação fácil que caracterizam a cultura grega, surgirá então a inovação industrial e uma nova ordem económica centrada no Sul da Europa renascerá como aconteceu em numerosos períodos da História!...
A famigerada troika voltará ao Hades e os países do sol e das praias continuarão a ser a cobiça dos países do Norte… Visitá-los-emos no Inverno, para uma curta visita às neves das suas montanhas!...

Saturday, May 12, 2012

O quociente de inteligência (QI) e as condições sanitárias nas escolas portuguesas

Alguns estudos recentes têm revelado que o quociente de inteligência (QI) de uma nação está correlacionado não só com a taxa do rendimento económico e o nível da educação, mas também com outros factores favoráveis: a elevada razão entre trabalho industrial e agrícola, temperaturas médias mais baixas, e até a maior distância à África que foi berço da humanidade. Estudos muito recentes mostram ainda que as boas condições de higiene e saúde favorecem o QI, o que explicaria os seus baixos valores nos países subdesenvolvidos. Feito o controlo dos factores acima referidos ─ como a temperatura média, a distância à África, o produto interno bruto per capita e vários factores relacionados com a educação ─ os factores mais influentes no grau de inteligência de uma nação parecem ser as doenças infecciosas. A explicação poderá ser de natureza fisiológica: a radicação de parasitas e de organismos patogénicos poderá atrasar o desenvolvimento do cérebro das crianças e limitar assim o seu desenvolvimento intelectual. Sob o ponto de vista energético, o ser humano teria dificuldade em construir um cérebro e lutar ao mesmo tempo contra as doenças infecciosas, visto que estas duas funções são metabolicamente muito exigentes.
Estes estudos revelam que existe uma diferenciação do nível intelectual por países ou regiões do globo cabendo às doenças infecciosas a principal responsabilidade para essa diferenciação. Assim, o aumento de inteligência média de países ricos verificado ao longo das décadas ─ o conhecido efeito de Flynn ─ poderia ser explicado pela crescente melhoria das suas condições de saúde. O controle de doenças infecciosas parece ter um papel fundamental no desenvolvimento social.
Até há algumas décadas, as condições higiénicas e sanitárias nas escolas portuguesas eram simplesmente lastimosas, apesar de Portugal ter sido um dos primeiros países a legislar em prol da defesa sanitária das escolas e dos escolares em 1842. Em 1888, denunciava-se na Revista Popular de Conhecimentos Uteis o facto de certos colégios, para meninos e meninas, se acharem “em locaes tão acanhados e inadequados que forçosamente devem influir na saude dos alumnos” e de “n’um espaço de oito a dez metros quadrados reunem durante seis horas 20 a 30 alumnos de tenra idade”. Até 1902, a legislação sanitária apenas se aplicava à construção dos novos edifícios escolares, mas não tinha qualquer influência na melhoria das condições sanitárias dos alunos. Com a reforma de 1902, da iniciativa de Ricardo Jorge e de Costa Sacadura, foi lançado um verdadeiro serviço de sanidade escolar que, no entanto, não foi compreendido nem apoiado por professores, pais e dirigentes escolares. Em Março de 1906 foram nomeados, como inspectores sanitários das 1ª e 2ª zonas liceais do Porto, os Drs. Aleixo Guerra e José Guilherme Pacheco de Miranda, mas em Junho de 1908, Sousa Avides denunciava as condições intoleráveis em que estavam a funcionar os liceus do Porto. Dizia que não tinham as mínimas condições de salubridade, particularmente o do 1ª zona, e renovava, por isso, a sua proposta de 1903 para que o parlamento ordenasse a construção de novos edifícios.
Fracassado, logo à nascença, o projecto de sanidade escolar de 1902, outros se lhe seguiram: um, em 1911, destinado aos liceus, e outro, em 1914, dirigido às escolas técnicas. Em 1916, fazia-se inspecção sanitária apenas nos liceus, embora se entendesse que deveria ser estendida pelos menos a todas as escolas primárias e profissionais médias. Em 1918, surgiu uma nova reforma mas, na opinião de António Paúl, apesar de todas as alterações legislativas “o Estado continuava a não dar a atenção devida ao serviço [sanitário], negando-lhe verbas e colaboradores em número suficiente”. Em 1933, o Estado Novo criou a Direcção Geral de Saúde Escolar que tomou a orientação da sanidade escolar, o que terá melhorado significativamente o apoio sanitário aos alunos das escolas portuguesas. Ao problema da cárie dentária não teria sido dada, no entanto, a atenção merecida, pelo menos até 1944. Desde há 30 ou 40 anos as condições higiénicas das escolas portuguesas melhoraram significativamente e, se outros factores não tiverem entretanto piorado, terá também aumentado a capacidade intelectual da juventude portuguesa.